Inimigos
O apelido de Maria Tereza para Noberto era “Quequinha”. Depois do casamento,
Sempre que queria contar para os outros uma da sua mulher, O Noberto pegava
Sua mão, carinhosamente, e começava:
- Pois a Quequinha...
E a Quequinha, dengosa, protestava:
- Ora, Beto!
Com o passar do tempo, o Noberto deixou de chamar a Maria Tereza de
Quequinha; se ela estivesse ao seu lado e ele quisesse se referir a ela, dizia:
- A mulher aqui...
Ou, às vezes:
- Esta mulherzinha...
Mas nunca mais de Quequinha.
(O tempo, o tempo. O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo.
O tempo ataca em silêncio. O tempo usa armas químicas.)
Com o tempo, Noberto passou a tratar a mulher por “Ela”.
- Ela odeia o Charles Bronson.
- Ah, não gosto mesmo.
Deve-se dizer que o Noberto, a esta altura, embora a chamasse de Ela, ainda usava um vago gesto da mão para indicá-la. Pior foi quando passou a dizer
“essa aí” e apontar com o queixo.
- Essa aí...
E apontava com o queixo, até curvando a boca com um certo desdém.
(O tempo, o tempo. O tempo captura o amor e não o mata na hora. Vai tirando uma asa, depois a outra...)
Hoje, quando quer alguma coisa da mulher, o Noberto nem olha na sua direção. Faz um meneio de lado com a cabeça e diz:
- Aquilo...
-Luis Fernando Veríssimo.
Por: Erika Sandeli*
sábado, 14 de junho de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
















Um comentário:
Postar um comentário